Carta de Despedida

Acordou com a quentura do sol que atravessava a janela e alumiava sua cara. Abriu com dificuldade os olhos cheios de remela e reparou que a casa estava vazia. Na sala onde deveria ter um sofá, apenas ele e uma garrafa vazia de pinga. A ressaca era brutal. Sua cabeça pesava mais que balde de cacimba. Fez um esforço descomunal pra ficar de pé. Seu corpo doía como se tivesse sido pisoteado por uma cavalhada inteira. Lentamente caminhou até a cozinha para beber um pouco de água. Não havia mais geladeira, fogão, armário, panelas, nada. Abriu a torneira, lavou o rosto, fez gargarejo, cuspiu na pia.  Num outro cômodo, descansando em cima de uma frágil mesinha de madeira, esperava por ele uma velha máquina de escrever. A folha que estava na máquina tinha apenas uma palavra. Não estava centralizada, nem acima, nem abaixo, nem no meio, nem no fim. Estava escrita sem ajustes. Do jeito que estava a folha, a palavra foi datilografada. Isso lhe dava uma agonia danada. Olhou a primeira letra meio apagada e pensou que em breve precisaria comprar outra fita por que aquela já estava ficando seca. As outras letras estavam mais fortes e riu um riso paia, daqueles que é só uma fungada pra fora pelo nariz. Aquele riso paia de compreensão. Compreendeu que a primeira letra tinha sido apertada com pouca força e que as demais letras, com força suficiente pra traduzir a raiva que sentia. O ponto final estava extremamente nítido. Ao menos ela teve a consideração de colocar o ponto.

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