Carta de Despedida

Acordou com a quentura do sol que atravessava a janela e alumiava sua cara. Abriu com dificuldade os olhos cheios de remela e reparou que a casa estava vazia. Na sala onde deveria ter um sofá, apenas ele e uma garrafa vazia de pinga. A ressaca era brutal. Sua cabeça pesava mais que balde de cacimba. Fez um esforço descomunal pra ficar de pé. Seu corpo doía como se tivesse sido pisoteado por uma cavalhada inteira. Lentamente caminhou até a cozinha para beber um pouco de água. Não havia mais geladeira, fogão, armário, panelas, nada. Abriu a torneira, lavou o rosto, fez gargarejo, cuspiu na pia.  Num outro cômodo, descansando em cima de uma frágil mesinha de madeira, esperava por ele uma velha máquina de escrever. A folha que estava na máquina tinha apenas uma palavra. Não estava centralizada, nem acima, nem abaixo, nem no meio, nem no fim. Estava escrita sem ajustes. Do jeito que estava a folha, a palavra foi datilografada. Isso lhe dava uma agonia danada. Olhou a primeira letra meio apagada e pensou que em breve precisaria comprar outra fita por que aquela já estava ficando seca. As outras letras estavam mais fortes e riu um riso paia, daqueles que é só uma fungada pra fora pelo nariz. Aquele riso paia de compreensão. Compreendeu que a primeira letra tinha sido apertada com pouca força e que as demais letras, com força suficiente pra traduzir a raiva que sentia. O ponto final estava extremamente nítido. Ao menos ela teve a consideração de colocar o ponto.

Carta de Despedida

O carrinho

Conferiu a lista de compras mentalmente, tomate, cebola, queijo, presunto, orégano, farinha de trigo. Estava em dúvida se para fazer pizza, a farinha que precisava levar era com fermento ou sem. Pegou o celular para conferir a receita na internet mas dentro do super mercado não conseguia sinal. Tinha sempre a mania de puxar o carrinho de compras pela frente ao invés de empurrar como todos faziam. Achava que assim, sentia quando o carrinho começava a ficar pesado e estava na hora de começar a parar de colocar coisas dentro. Decidiu colocar duas pizzas prontas, caso a receita desse errado. Pegou uma de Calabresa e uma de Lombo Canadense. Era sexta feira a noite e o super mercado estava um pouco cheio. Não planejava sair durante o fim de semana e decidiu levar algumas cervejas para acompanhar a pizza e saiu da sessão puxando seu carrinho. Parou na sessão de cervejas premium, estava cansado de cerveja pilsen normal. Afinal estava querendo um fim de semana bem relaxado. Colocou dois pacotes de 6 cervejas no carrinho e saiu puxando. Lembrou que precisava comprar ferramentas pois estava cansado de pedir o martelo emprestado do vizinho. A sessão de ferramentas estava vazia em relação às outras. Agachou para procurar o martelo mais barato. Achou caro pagar R$38,50 numa ferramenta para bater em pregos mas não encontrou nada mais barato que isso e estava pensando se valia a pena levar e não ter que pedir mais nada emprestado ao vizinho inconveniente que pedia muito mais coisas emprestado quando o choro de um bebê atrapalhou seu devaneio. O choro era estridente e atrapalhava o raciocínio. Decidiu levar o martelo para sair logo dalí. Ao levantar para colocar o martelo no carrinho de compras, percebeu que o choro vinha de lá. Havia uma cadeira de bebê acoplada ao seu carrinho de compras e na cadeira um bebê. Um bebê chorando. E muito! Olhou dentro do carrinho e viu suas cervejas, suas pizzas, seus tomates, cebolas, leite, ovos, pão. Aquele não era seu carrinho e definitivamente não era seu bebê. Ele não tinha nenhum bebê.

O carrinho